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Saiba os desafios da arquitetura na Copa 2026

A preservação da memória urbana e as transformações das cidades entram em campo durante o maior evento do futebol.

  • Institucional

30/06/2026 por Bruna Mariano

Tempo de Leitura: 4 minutos

Quando pensamos em uma Copa, é comum associarmos o torneio aos jogos, às torcidas e às disputas dentro de campo. Mas grandes eventos esportivos também revelam transformações muito mais profundas. Eles evidenciam diferentes formas de pensar a cidade, o patrimônio histórico e a relação entre passado e futuro. 

A edição de 2026, que será realizada simultaneamente no México, nos Estados Unidos e no Canadá, traz à tona debates fundamentais para a Arquitetura e o Urbanismo: como preservar a memória coletiva sem impedir a inovação? Como modernizar espaços históricos sem apagar sua identidade? E quais impactos essas intervenções podem gerar na vida urbana? 

Segundo os professores Maria Izabel de Paula Ribeiro, do curso de Arquitetura e Design, e Rodrigo Soares, de Arquitetura e Urbanismo da UNISUAM, a Copa oferece uma oportunidade de olhar para os estádios não apenas como equipamentos esportivos, mas como expressões culturais capazes de contar a história das cidades. 

ESTÁDIO AZTECA: QUANDO A ARQUITETURA SE TRANSFORMA EM PATRIMÔNIO 

Poucos edifícios esportivos carregam tanto significado quanto o Estádio Azteca, no México.  Projetado pelo arquiteto Pedro Ramírez Vázquez, o estádio se tornará o primeiro da história a sediar partidas em três Copas do Mundo: 1970, 1986 e 2026. Mais do que um palco para o futebol, ele representa um símbolo da arquitetura moderna latino-americana e ocupa um lugar especial na memória afetiva de gerações. 

Para os docentes, construções como essa ultrapassam sua função original. “Alguns edifícios deixam de ser apenas estruturas físicas e passam a integrar a identidade coletiva de um povo”, destacam os professores. “Eles guardam lembranças, narrativas e acontecimentos que ajudam a construir o sentimento de pertencimento”.

Nesse sentido, preservar o Estádio Azteca significa preservar também parte da história cultural mexicana. 

O DESAFIO DE MODERNIZAR SEM APAGAR A MEMÓRIA 

Receber uma Copa exige adaptações importantes. Segurança, acessibilidade, conectividade, conforto e soluções tecnológicas são hoje requisitos indispensáveis para eventos dessa dimensão. No entanto, surge uma questão delicada: até que ponto essas intervenções podem transformar um patrimônio histórico sem descaracterizá-lo? 

Segundo Maria Izabel e Rodrigo Soares, o grande desafio da arquitetura contemporânea está justamente em encontrar esse equilíbrio. “Modernizar não significa apagar o passado. A atualização tecnológica precisa dialogar com os valores históricos e simbólicos das edificações”, explicam. É nesse contexto que ganha força o conceito de retrofit patrimonial: intervenções que incorporam novas demandas funcionais e tecnológicas, preservando a essência arquitetônica original.

TRÊS PAÍSES, DIFERENTES FORMAS DE PENSAR A CIDADE 

A Copa 2026 também evidencia diferentes estratégias urbanas adotadas pelos países-sede. Enquanto o México reforça o valor simbólico e histórico de equipamentos já consolidados, muitos projetos norte-americanos estão associados a processos mais amplos de renovação urbana. Antigas áreas industriais vêm sendo transformadas em centros de entretenimento, turismo e consumo, impulsionando investimentos e novas dinâmicas econômicas. 

Mas essas mudanças também levantam questionamentos importantes. 

“Os grandes projetos urbanos podem gerar benefícios significativos, mas precisam considerar quem vive nesses territórios”, alertam os docentes. “Desenvolvimento urbano não pode significar exclusão”. 

GENTRIFICAÇÃO E O DIREITO À CIDADE

A valorização imobiliária costuma acompanhar grandes intervenções urbanas. Embora traga melhorias de infraestrutura, também pode provocar o aumento do custo de vida e o deslocamento de populações tradicionais. 

Esse fenômeno, conhecido como gentrificação, é um dos principais debates contemporâneos do urbanismo. Para os professores da UNISUAM, discutir os impactos sociais dos megaeventos é tão importante quanto analisar seus aspectos arquitetônicos. 

“A cidade deve ser pensada para as pessoas. O direito à memória, ao pertencimento e à permanência também faz parte do planejamento urbano”. A reflexão amplia o olhar sobre a Copa do Mundo e mostra que as transformações urbanas vão muito além dos estádios. 

A CIDADE COMO UMA ORQUESTRA DO TEMPO 

Ao refletirem sobre a convivência entre construções históricas e novas arquiteturas, Maria Izabel e Rodrigo recuperam uma ideia defendida pelo historiador Roberto Papini: a noção de “polifonia urbana”. A metáfora compara a cidade a uma composição musical, em que diferentes vozes coexistem em harmonia. 

Segundo essa perspectiva, o novo não deve competir com o antigo nem imitá-lo de forma artificial. Ambos precisam dialogar, respeitando suas características e contribuindo para enriquecer a paisagem urbana. Os professores destacam três princípios fundamentais dessa visão: 

  • Respeito à autonomia de cada época: evitar reproduções que criem “falsos históricos”;
  • Harmonia entre diferentes linguagens arquitetônicas: novas construções não devem ofuscar os marcos existentes;
  • Continuidade histórica: compreender a cidade como um organismo vivo, em constante transformação.

“Cada geração deixa suas marcas. O desafio é fazer com que essas marcas conversem entre si, sem ruídos que apaguem o que veio antes”, observam. 

MUITO ALÉM DO FUTEBOL 

A Copa mostra que arquitetura e urbanismo são ferramentas poderosas para compreender as sociedades. Os estádios revelam valores culturais. As intervenções urbanas expõem disputas econômicas e sociais. Os processos de preservação evidenciam aquilo que escolhemos lembrar e aquilo que estamos dispostos a transformar. 

No fim das contas, a cidade ideal não é um museu congelado no tempo, tampouco um espaço que destrói suas raízes em nome da modernização. Ela é feita de diálogo. É o lugar onde passado e presente coexistem, onde memória e inovação se complementam e onde diferentes tempos contribuem para construir identidades coletivas mais ricas e plurais. 

Talvez essa seja uma das maiores lições deixadas pela Copa 2026: entender que, assim como no futebol, grandes cidades são resultado do trabalho conjunto entre tradição, criatividade e visão de futuro.

Este texto foi desenvolvido a partir das contribuições dos professores Maria Izabel de Paula Ribeiro, do curso de Arquitetura e Design, e Rodrigo Soares, do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNISUAM. O conteúdo foi reescrito e adaptado para esta publicação, preservando as ideias centrais apresentadas pelos docentes. 

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Por Bruna Mariano

Analista de Marketing no LinkedIn e Blog UNISUAM. Jornalista e Pós-Graduado em Comunicação Digital e Redes Sociais.

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